segunda-feira, 2 de julho de 2012

Cresce a procura de adolescentes por ensino do EJA


No RS, o número de menores de 18 anos que estudam na Educação de Jovens e Adultos (EJA) tem aumentado, indo contra a tendência nacional de redução

Adolescentes entre 15 e 18 anos dominam as turmas de Ensino Fundamental do supletivo no Estado

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) está se tornando cada vez mais Educação de Jovens e Adolescentes, pelo menos no Rio Grande do Sul. Contrariando uma tendência nacional de queda, a quantidade de menores de 18 anos no supletivo aumenta ano após ano no Estado. Cresceu 10% apenas em 2010, conforme os dados mais recentes do governo federal. Números da Secretaria Estadual da Educação apontam continuidade do fenômeno em 2011 na rede estadual.

No Rio Grande do Sul, 23,4% dos estudantes de EJA são adolescentes, contra uma média nacional de 14,7%. Cinco anos antes, a situação era de equilíbrio. Como o acesso ao Ensino Médio da modalidade é restrito aos maiores de idade, os adolescentes estão concentrados nas turmas de Ensino Fundamental, nas quais se tornaram dominantes. Assim, podem completar as séries em metade do tempo normal.

Não é uma situação isenta de controvérsias. Em 2008, a Câmara da Educação Básica do Conselho Nacional da Educação (CNE) aprovou, por unanimidade, um parecer que elevava de 15 para 18 anos a idade mínima para se matricular no EJA. Em meio à polêmica, o Ministério da Educação decidiu não homologar a resolução. Permaneceu tudo igual.

Há alunos que esperam apenas o aniversário de 15 anos para trocar a turma seriada pela do EJA, em muitos casos no mesmo estabelecimento de ensino. Rosaura Rodrigues, coordenadora pedagógica do EJA da escola Universitário, notou uma explosão dessa tendência nos últimos cinco anos: 

— Eles querem entrar no mercado de trabalho e percebem que, sem diploma, não vão conseguir. Como foram reprovados na escola e perderam tempo, procuram uma modalidade mais rápida. 

A ânsia de recuperar o tempo perdido foi o que motivou Fabíola Staudt da Silva, 15 anos, a optar pelo supletivo. Em 2010, ela foi reprovada na 8ª série em uma escola estadual de Estância Velha. Em 2011, a família transferiu-a para um colégio particular. No meio do ano, veio uma mudança para Dois Irmãos, e Fabíola teve de trocar de escola outra vez. A mãe, Salete Staudt da Silva, 45 anos, diz que as notas de um colégio não foram aceitas pelo outro, levando a nova reprovação. 

Após dois anos perdidos, a família viu no EJA a saída para ganhar tempo. Fabíola termina o curso na semana que vem. Vai tentar entrar em uma escola seriada de Ensino Médio. A meta é estar diplomada no 1° ano já em dezembro. 

— Optamos pelo EJA para minha filha não fazer a 8ª série inteira de novo. Foi a forma de não perder mais um ano — diz Salete.

A Secretaria Estadual da Educação ainda não tem explicação para o fenômeno. 

— Não gostaria de emitir um diagnóstico, porque não fizemos essa discussão. Temos de nos debruçar sobre o tema para entender melhor — diz Adriana Soares Rodrigues, assessora de referência da Educação de Jovens e Adultos na secretaria.

Troca pode não significar educação pobre

Para muitos profissionais da área, a troca do ensino seriado pelo EJA não representa necessariamente uma formação mais precária para o adolescente.

— Mantê-lo na escola regular, entre crianças, pode não ser a melhor solução. O que preocupa é a mudança de padrão. Com um público mais jovem, o EJA precisa passar por uma revisão de currículo e propostas — afirma Roberto Catelli, coordenador da área de EJA da ONG Ação Educativa.

Adriana Soares Rodrigues, da Secretaria Estadual da Educação, observa que ter adolescentes no EJA significa, pelo menos, que eles não estão fora do sistema de ensino.

— Se o jovem não concluiu o Fundamental até os 14 anos, significa que teve um percurso acidentado. Estar no EJA não é um empobrecimento da educação dessa pessoa. É dar conta das características da idade, o que, às vezes, a proposta pedagógica da escola seriada não faz. Não é só a carga horária que dá qualidade.
Adriana diz que há necessidade de repensar a estratégia da escola regular, para adaptá-la às necessidades dos jovens. Segundo ela, a secretaria está fazendo um estudo com a ideia de criar nas escolas gaúchas turmas nas quais os alunos com defasagem entre a idade e a série sejam reunidos, de forma que não se sintam deslocados.

A professora Maria Conceição Pillon Christofoli, da Faculdade de Educação da Pontifícia Universidade Católica (PUCRS), interpreta o fenômeno como um sintoma de problemas na escola regular, que não está conseguindo lidar com a diversidade de idades em sala de aula adequadamente.

Os porquês do fenômeno

Alguns fatores que contribuem para os adolescentes optarem pelo supletivo:

Reprovação: alunos que repetem uma ou mais séries tendem a ficar deslocados na escola. Com frequência, abandonam os estudos. A solução é o EJA, onde vão estudar com pessoas na mesma situação.

Dificuldades Socioeconômicas: a pobreza contribui para afastar os adolescentes do ensino regular. Situações familiares complicadas ou a necessidade de ficar em casa cuidando de um irmão, por exemplo, podem motivar muitas faltas. Em outros casos, as drogas e a violência afastam da escola.

Gravidez na adolescência: meninas que engravidam tendem a deixar a escola regular depois de ter o bebê. Um dos motivos é que, ao se tornarem mães, passam a ver a turma como infantilizada e se sentem deslocadas. Em outras situações, a adolescente tem de ficar com o filho durante o dia e opta pelo EJA noturno.

Mercado de trabalho: alguns alunos estudam no EJA à noite para trabalhar durante o dia. A necessidade de um diploma para obter emprego, por outro lado, motiva muitos jovens que haviam abandonado a escola a retomar os estudos pela porta do supletivo.

A facilidade do atalho: alunos que completam 15 anos e ainda não terminaram o Ensino Fundamental optam, com alguma frequência, por migrar para o EJA, para ganhar tempo.

As regras

A carga horária e o acesso ao EJA, segundo a legislação:
Ensino Fundamental do EJA (5ª a 8ª séries)
- Idade mínima para ingresso: 15 anos
- Carga horária: 1,6 mil horas
- Carga horária das mesmas séries no ensino regular: 3,2 mil horas

Ensino Médio do EJA
- Idade mínima para ingresso: 18 anos
- Carga horária: 1,2 mil horas
- Carga horária das mesmas séries no ensino regular: 2,4 mil horas
 
Fonte: Zero Hora

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